Reminiscências rondonienses - por Amadeu Bocatios - Capítulo 2 e 3

Havia recebido naquela manhã e já estava completamente duro. E não havia pago meu aluguel no hotel e nem comido nada. *No quarto havia apenas cigarros, whisky ...

Reminiscências rondonienses - por Amadeu Bocatios - Capítulo 2 e 3

Foto: Divulgação

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* 02 de dezembro, 2003 *Segunda parte *-- Eu uso drogas mas sou um cara bom, pô! *Este foi meu primeiro pensamento ao chegar no hotel depois do ocorrido com o Álvaro no Halley. Sim. Eu saí de lá imediatamente após o diálogo. Me sentia como se todo mundo tivesse parado o que estava fazendo prá prestar atenção no que acontecia.* Parou- se a música e a dança, não se ouvia mais conversas e nem barulho de talheres. O pior de tudo era a sensação de centenas de pares de olhos pousados sobre mim enquanto o Álvaro dançava com a dona que trabalhava na casa. Era aquele - na minha alucinação - o único casal na pista. *Nesta época eu morava no hotel Rio de Janeiro, em frente à Rádio Melodia AM. Tinha uma namorada enfermeira chamada Cássia, um amigo chamado Acir que morava no quarto ao lado e era vendedor viajante. Havia recebido naquela manhã e já estava completamente duro. E não havia pago meu aluguel no hotel e nem comido nada. *No quarto havia apenas cigarros, whisky e os restos mortais dos baseados que eu havia fumado mais cedo. As chaves do Acir ficavam comigo prá que o pessoal do hotel pudesse limpar o quarto. *-- Eu nunca fiz mal à ninguém. Eu nunca agredi ninguém. Fumo meus baseados prá acalmar. Cheiro minhas rapas de pó prá ficar mais animado prá balada, e isso tudo me ajuda no trabalho também, na verdade. Além disso, sou extremamente sociável quando estou fumado. *Sentado na cama, me forcei à relembrar o passado, desde muito tempo. Todos os riscos que corri, todos os choros que vi minha mãe chorando em segredo e cansei. Literalmente cansei. *Descobri que por mais que eu acreditasse quando dizia que a droga só fazia mal prá mim mesmo aquilo era uma mentira. Que ela afetava todos os que estavam à minha volta. As lágrimas escondidas da minha mãe haviam de alguma maneira me mostrado isso. E eu cansei. E descobri que só haviam duas formas de acabar com aquilo. *O Acir estava viajando e eu sabia da arma que ele guardava no quarto dele. Fui lá e peguei, olhei e uma sensação de angústia veio junto com o de frio por conta do aço. De volta o meu quarto, foi o tempo de sentar na cama, colocar a arma na cabeça, puxar o cão prá trás e os pensamentos vieram. *"com um suspiro sinto tudo retornar. Cerro os olhos e sinto as lágrimas que começam a correr em marcha ré, marcando devagar o tempo de trás pra adiante, como os ponteiros do relógio a girar em sentido contrário. Como que pelos olhos de outra pessoa, vejo- me rejuvenescendo.* Vejo os espaços de minha cabeça, os que estão vazios pela falta de cabelos à serem preenchidos; vejo as poucas rugas nos cantos dos olhos se esticando, os braços e as pernas enrijecerem em músculos infantis. As lições que aprendi com a idade tornam- se indistintas e minha inocência vai voltando". *Eu ainda era uma criança quando tudo começou. E o medo que senti era o medo que eu teria sentido se ainda tivesse 9 anos. Vontade de correr pro colo da mãe. *Vontade de ter os olhos do pai procurando um inimigo qualquer, mesmo que imaginário. *-- Eu sou muito cagão prá fazer isso. *Coloquei a arma de novo no quarto do Acir e fui prá rua. Passavam poucos minutos da primeira hora da madrugada. Sem saber porque, me dirigi ao Hospital de Base, um hospital público, onde eu esperava conseguir alguma ajuda. Dois PMs e uma agente da Civil estavam de guarda. *-- Eu queria falar com o médico de plantão. *-- Qual é o problema? - perguntou um dos PMs -- Eu preciso falar com o médico de plantão, e não com policiais. *-- Ele saiu de uma cirurgia de emergência e está descansando. Pediu que o acordássemos se fosse alguma coisa grave. *-- Vá à merda. O que você sabe de gravidade? *Nisso, a agente da Civil interveio *-- Vamos conversar ali fora, Amadeu? *E me explicou que o médico havia tido uma cirurgia delicada, de emergência, que começara no início do plantão dele e estava precisando descansar. Havia saído da cirurgia menos de meia hora antes de eu chegar. E mesmo que ele me atendesse, ela não acreditava que ele pudesse me ajudar, pois meu caso não era médico. Entendi e saí de novo. *Sei que passei uma madrugada inteira rodando a cidade. Na delegacia, o plantonista disse que não podia fazer nada. Num outro hospital público me disseram que poderia ser arranjada uma vaga prá mim numa clínica em Campinas; o pai de santo do terreiro de umbanda que eu freqüentava na época nem abriu a porta (-- Só atendo à partir das 11 da manhã!)... *Eram mais ou menos seis e meia da manhã quando entrei no Hospital Nova Brasília - um hospital particular caríssimo e que atendia o pessoal da rádio em permuta. O médico de plantão estava, e estava acordado. *-- Hoje é o doutor Djair Prieto quem está no plantão - me informou a recepcionista. *Apesar de tê-lo tido há tempos como adversário - ele havia sido candidato à prefeito contra o José Bianco, prá quem eu havia trabalhado no pleito - sabia de sua competência. Ao me receber, ele me examinou completamente, verificou pressão, altura (1,75m) peso (48 quilos), me receitou uma injeção de vitaminas intravenosa, boa alimentação e disse que mais não podia fazer, que era um problema que só eu poderia resolver. *-- E pode, Amadeu. Basta querer. *Saí de lá mais angustiado ainda. Eu havia tentado um dos caminhos prá acabar com o problema. Não deu certo. Só me restava um saída. *Indo de volta pro hotel, pronto prá cagada, passando na frente do consultório de um dentista resolvi entrar. Ele é um pastor evangélico e foi alvo de uma das matérias soltas que eu fazia. Uma que não foi publicada, era sobre um sítio que a igreja que ele pastoreava mantinha. Uma casa de recuperação de viciados, que na época - soube pelo telefone, pela esposa dele - estava vazia. Talvez por isso a matéria não tenha sido rodada.* Entrei e na mesma hora me lembrei: estávamos numa sexta feira, dia em que ele nunca estava na cidade. Ia ou prá Porto Velho ou pro Acre. Sabia disso por conta da minha namorada Cássia, que era paciente dele. *Quando estava de novo na porta prá ir embora, uma mulher me disse, de outro canto: *-- Teu nome é Amadeu, não é? *-- Isso mesmo - estranhei, pois não conhecia a mulher. *-- Então, por favor, aguarde que o doutor Andreoli já vai te receber. *-- Ele não estaria viajando hoje? *-- Estaria na estrada agora, prá Porto Velho. Mas chegou aqui e disse que tinha uma coisa urgente prá resolver na cidade, e pediu que eu cancelasse todos os compromissos dele lá. *Poucos minutos depois e a porta do consultório dele se abre e ele sai, enorme, com enormes olhos azuis e sorriso enorme. Ele sorria com a cara toda. Olhos, nariz e boca eram um sorriso só. *-- Hei, Amadeu. Eu estava te esperando... Que bom que você veio... *Me abraçou um abraço forte, me olhou nos olhos e disse: *-- Que prazer enorme te conhecer! *Não. Na verdade nós não nos conhecíamos pessoalmente. *CONTINUA... * O terceiro capítulo da história já foi publicada no Rondoniaovivocom o titulo, "O início da mudança", na editoria especial. *Segue abaixo link para ler a terceira parte da história de Amadeu Bocatios * - - - - CLIQUE AQUI - - - -
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